Histórico

O caso do Piumhi

Orlando Moreira Filho 
Paulo Andreas Buckup
Odete Rocha
Vladimir Pavan Margarido
Luiz Antônio Carlos Bertollo
Marcelo Vicari
Roberto Ferreira Artoni
Liano Centofante

 

A cabeceira do rio Piumhi está localizada na divisa entre municípios de Vargem Bonita e Piumhi, ao centro oeste do estado de Minas Gerais. Sua cabeceira é formada pela junção dos córregos Destêrro, Jorça e Confusão aproximadamente há 930 metros de altitude.
No final dos anos 50, as águas do rio Piumhi fluiam num pequeno trecho para o Nordeste, deslocando-se para o Leste, em seguida para o Sudeste e finalmente para o Sul, que passava a ser sua direção geral até a foz. Em parte de seu percurso atravessava uma região de planicie alagada com mais de 38 Km de extensão, denominada antigamente como o pantanal do rio Piumhi. À margem esquerda desse rio está localizada a cidade de Capitólio, onde as águas do Piumhi continuavam rumando ao Sul, por volta de 760m de altitude, onde situava-se sua foz, na margem direita do rio Grande. Portanto, até 1963 o rio Piumhi pertencia a bacia do rio Grande.

 

 

Segundo as folhas cartográficas de Vargem Bonita, rio Piumhi, Piumhi e Capitólio (escala 1.50.000), os principais afluentes do rio Piumhi, à margem direita, são córregos da Jorça, da Confusão e da Estiva, ribeirão dos Pavões, córregos dos Bois, da Onça, do Servo, Campão Grande, do Fumo, Mutuca, Penedo, ribeirão da Cachoeira e córregos Àgua Limpa, dos Soares e Araujo15. Os afluentes da margem esquerda são córregos do Destêrro, das Almas, ribeirão dos Almeidas, córrego Capão da Olaria, ribeirão das Minhocas e os córregos Pari Velho e Engenho da Serra 7. Ressalta-se que até o inicio dos anos 60 os córregos Capão da Olaria, dos bois, da Onça, do Servo, Campão Grande, do Fumo e Mutuca não desaguavam diretamente nas margens do rio Piumhi, mas sim no grande pantanal por onde percorria o rio Piumhi .

 

A transposição do rio Piumhi

Entre o final da década de 50 e início dos anos 60 estava sendo concluída a grande represa de Furnas, sobre o rio Grande, pertencente à bacia do Alto Paraná. Quando as comportas da usina hidrelétrica fossem fechadas, o nível da água da represa seria de tal monta que alagaria a cidade de Capitólio, em Minas Gerais, e as águas da represa escoariam pela região do pântano do rio Piumhi, até atingir a bacia do rio São Francisco, conectando assim duas bacias hidrográficas. Para solucionar parte desse problema e não alagar a cidade, foi construído um dique para conter as águas da represa de Furnas, nas imediações do município de Capitólio (Dique de Capitólio)

 

Entretanto, esse dique também represou as águas do rio Piumhi, que naquela época era um dos afluentes da margem direita do rio Grande. (Fig. 2 foto Dique de Capitólio),
Aproveitando a topografia da região do pantanal - por onde corria o leito do rio Piumhi, suas lagoas marginais e seus 22 afluentes - foi efetuado um sistema de drenagem, com a construção de aproximadamente 18 Km de canais, alterando o curso do rio Piumhi, desviando as suas águas, e as do pântano para o córrego Água Limpa, que deságua na margem esquerda do ribeirão Sujo, um dos afluentes da margem direita do rio São Francisco (Fig.3 Desenho Mapa seg IBGE situação atual).

 

Para efetuar o desvio, foi necessário alterar o leito do córrego Água Limpa, que foi totalmente dragado e alargado para receber todo o volume de águas vindas do rio Piumhi, de seus afluentes e da drenagem do pântano. O mesmo procedimento teve de ser feito em parte do leito do ribeirão Sujo.
Na parte inferior da bacia do rio Piumhi, na região do dique formaram-se sucessões de grandes lagos interligados, cujas as àguas também foram desviadas para um dos canais do rio Piumhi (canal de refluxo), que junta-se ao canal construido sobre o Àgua Limpa.

Assim, a transposição do rio Piumhi, da bacia do rio Grande para a bacia do rio São Francisco, acarretou diversas alterações ambientais, tais como (a) a formação de um conjunto de lagos no antigo leito do rio Piumhi, na região do município de Capitólio, (b) a construção de canais, por onde corre atualmente o rio Piumhi, (c) a drenagem do pântano e, finalmente, (d) a alteração dos leitos dos córregos e ribeirões. No álveo abandonado do rio Piumhi, a mata ciliar foi derrubada e substituída por pastagem. Hoje, o rio Piumhi corre por canais totalmente desprovidos de mata ciliar.

Evidentemente, tudo isso modificou a paisagem da região, associado à ausência de estudos e à negligência dos órgãos governamentais responsáveis pela degradação ambiental ali observada.
Inevitavelmente, a transposição de águas colocou em contato peixes de distintas bacias hidrográficas, que estavam separados há milhões de anos. Assim, toda a ictiofauna do rio Piumhi (bacia rio Grande), que representava uma parcela da ictiofauna do sistema hídrico-alto Paraná, foi transposta para a bacia do rio São Francisco. Dentre todos os impactos ambientais ocasionados pela transposição do rio Piumhi para a bacia do rio São Francisco, a mistura das duas ictiofaunas, sem dúvida alguma, é o que mais chama a atenção dos ictiologistas.
Em novembro de 2004 na campanha de coleta de peixes efetuda em parceria entre o laboratório de citogenética de peixes da UFSCar e o Museu Nacional da UFRJ no canal do rio Piumhi, foi efetuada a primeira amostragem de peixes, entre os exemplares capturados de algumas espécies, o que chama a atenção foi a presença de Leporinus octofasciatus, espécie conhecida popularmente como "Ferreirinha", sendo da bacia do rio Paraná, presente na bacia do São Francisco.

 

Bibliografia

Ferreira, J.P. 1959. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Volume XXVI, Publicação Comemorativa do 230 aniversário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Organizado e Orientado por Juradyr Pires Ferreira.

Cartas Cartográficas (IBGE): rio Piui; Piui e Capitólio escala 1:50.000. Editada 1970.

Moreira-Filho, O. 2004 . Transposição do rio Piumhi, da bacia do rio Grande, para a bacia do rio São Francisco. Comunicação dos sócios II. IN: Boletim da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI). Ed. João Pessoa, setembro 2004 N0 76: pg 5 e 6. ISSN 1519-0021. (colocar para Link divulgação científica).

Moreira-Filho, O. 2006. "Uma transposição de rio esquecida." Revista Universidade Federal de Goiás, ISSN: 
1677-9037.Dezembro 2006, VIII n0 2 pg. 77-82.

Moreira-Filho, O. & Buckup, A.P. 2005. A poorly case of watershed transposition between the São Francisco and upper Paraná river basins. Neotropical Ichthyology 3 (3): 449-452.

 

A Situação em 1958
A Situação em 1963